“Operação realizada com sucesso!”

Um debate de ideias. Esta foi a tônica da sétima edição da Pré-Sinco, evento que reuniu profissionais da área de comunicação e educação para um bate papo com os alunos da Faculdade Unibahia, na última terça-feira, dia 3. A palestra, que este ano tratou do tema Acessibilidade e cidadania: contribuição do profissional de comunicação para a sociedade civil e organizada, foi aberta ao publico e contou com a presença e participação de muitos estudantes.

O evento contou com a presença dos palestrantes Patrícia Silva de Jesus, especialista em Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva e consultora da Unesco, Ricardo Guimarães, escritor e consultor visual, além do jornalista Lázaro Britto, que falou sobre acessibilidade – aonde queremos chegar?. Entre os temas abordados o preconceito aos vários tipos de pessoas com deficiências e violação de seus direitos, além da falta de acessibilidade aos seus direitos enquanto cidadãos.

A mesa redonda, que precede a Sinco – Semana Integrada de Comunicação da Unibahia, discutiu também como o profissional de comunicação pode contribuir no exercício da sua função para modificar esse quadro, além de serem apresentadas novas técnicas e tecnologias para a inclusão dos deficientes visuais e físicos no exercício da cidadania.

Na entrevista abaixo, concedida à estudante de jornalismo Lygia Martins, Lázaro fala sobre os pontos principais abordados em sua apresentação, como os principais obstáculos enfrentados por quem tem algum tipo de deficiência e o que é necessário esclarecer à sociedade sobre a temática da acessibilidade e cidadania.

O que é preciso esclarecer para a sociedade?

É preciso esclarecer que a pessoa com deficiência – assim como qualquer outra – possui limitações, mas não em um grau que a impeça de levar uma vida normal, apesar de todos os obstáculos estruturais, preconceito e discriminação, que tendem a delimitar as potencialidades do deficiente.

Quais as maiores reclamações dos portadores de necessidades especiais?

As maiores reclamações das pessoas com deficiência giram em torno do preconceito em relação às suas potencialidades (de estudar, trabalhar, ter vida social, realizar atividades físicas e outras…); da violação dos direitos adquiridos (como acesso a saúde, educação, trabalho, lazer e cultura) e da falta de acessibilidade nos espaços públicos, nos meios de transportes, bem como a falta de conscientização e sensibilização de algumas pessoas.

O que houve de mudanças no serviço público baiano?

Como servidor público, posso afirmar que as mudanças foram poucas, vem acontecendo de forma ainda lenta, porém progressivas como o crescimento de uma árvore. Por conta da legislação, os órgãos públicos estão aos poucos se adaptando às necessidades das pessoas com deficiência, e promovendo formas de acessibilidade, principalmente nas unidades que possuem atendimento ao público. No TRT da Bahia, por exemplo, já existem servidores capacitados em LIBRAS, para atender deficientes auditivos, já se pensa em um novo site acessível para quem tem deficiência visual…, enfim, as coisas estão melhorando neste sentido.

Conte uma situação constrangedora que vivenciou.

Certa vez subi em um ônibus cheio tarde à noite e ninguém me cedeu o lugar. Percebi que duas estudantes (aparentemente sem qualquer problema físico) ocupavam os acentos reservados e mesmo assim não me senti à vontade para pedir o lugar, pois esperava que por conta própria uma delas o fizesse, o que não aconteceu. Elas fingiam estar dormindo. Percebendo a situação, o motorista falou em alta voz que só seguiria viagem quando “algum abençoado” (termos utilizados por ele) me cedesse o lugar. Após alguns segundos de um silêncio estarrecedor, um homem sentado próximo ao cobrador gritou “senta aqui, velho!”. Tive que deixar o orgulho de lado e aceitar o que tinha para aquele dia: um assento, mesmo que praticamente no fundo do ônibus.

Esta situação foi apenas um de diversas semelhantes que já vivi, mas a destaco como constrangedora porque, além de ter um direito cruelmente violado, tive a nítida impressão de que o deficiente físico, assim como o idoso, a gestante…, incomoda muita gente dentro de um transporte público. Percebo em diversas situações que as pessoas estão intolerantes, insensíveis, sem solidariedade. Isso é chato porque além de ter de lidar com as barreiras estruturais de uma cidade não adaptada, temos que lidar com a falta de consciência das pessoas.

Como surgiu a ideia para criar o blog passo firme? Existe alguma parceria ou apoio?

A ideia de criar o blog surgiu inicialmente para promover o projeto Passo Firme, desenvolvido em fevereiro deste ano, que nada mais é que uma campanha de arrecadação de fundos para a compra de minha perna mecânica moderna – uma C-Leg, da Otto Bock – orçada em aproximadamente R$ 100.000,00 (Cem mil reais) nos principais centros de reabilitação física do país. Como não tenho condições de arcar sozinho com o custo da prótese, desenvolvi o projeto na modalidade de cotas de patrocínio, o mesmo utilizado por ONGs. No meu caso, o recurso total do orçamento foi dividido em 200 cotas de patrocínio no valor de R$ 500,00 (Quinhentos reais) cada, que poderão ser doadas por amigos, artistas, políticos, empresários… e quem mais quiser e puder ajudar.

Inicialmente enviei o projeto para deputados da bancada baiana, tanto estaduais como federais, depois enviei para senadores e vereadores, além de alguns empresários baianos. Até o momento não existe oficialmente nenhuma parceria ou apoio, somente promessas em fase de análise.

Nesse meio termo o blog cresceu, tornou-se conhecido em diversas comunidades na internet, o que tem sido muito bom.

Fale um pouco da falta de acesso a postos de saúde para cadeirantes, ausência de sinalização adequada nas ruas para a mobilidade dos deficientes visuais, a carência de veículos coletivos apropriados para cadeirantes e sobre a dificuldade em acessar serviços básicos como emissão de documentos civis no SAC, por exemplo.

No que diz respeito às duas partes iniciais de sua pergunta (falta de acesso a postos de saúde para cadeirantes, ausência de sinalização adequada nas ruas para a mobilidade dos deficientes visuais), sugiro bater um papo com um cadeirante e um cego, pois eles têm mais propriedade para falar sobre o que passam.

Na questão da falta de acessibilidade no transporte coletivo, é mais ou menos aquilo que expus em minha apresentação. Segundo dados da Secretaria de Transporte e Infraestrutura (Setin), o sistema de transporte coletivo por ônibus na capital baiana é composto por 564 linhas de ônibus operadas por 18 empresas, com uma frota de 2.557 veículos que transportam em média 1,3 milhões de passageiros por dia útil. Da frota existente, apenas 346 ônibus são adaptados para as pessoas com deficiência, os quais circulam em 152 linhas. Fica óbvio a carência de transporte público adaptado para quem sofre de alguma dificuldade de locomoção.

Uma pesquisa realizada em 2009 pela Escola de Engenharia da Universidade Federal da Bahia (Ufba) constatou que o transporte público é o meio de locomoção utilizado por 96% da população com algum tipo de deficiência. Só em Salvador estima-se que sejam 600 mil pessoas, segundo dados do Censo (2000) realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com o mesmo recenseamento, existem no Brasil 24,6 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência, o que equivale a 14,5% da população. Destes, estima-se que dois milhões estejam na Bahia.

Embora o panorama nacional de inclusão das pessoas com deficiência na sociedade revele alguns avanços, a maioria delas ainda enfrenta situação de violação de direitos que obstruem a inclusão e participação do deficiente na sociedade.

Passo Firme – 05.05.2011 (Com informações da Unibahia)
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