“Boa prótese é um trabalho único que nunca está concluído”

Lázaro Britto

Você concorda com a afirmação acima? Ela foi encontrada em um dos comentários deixados no post O que faz uma boa prótese?, publicado aqui no blog no último dia 29. Diversas pessoas, entre amputados e profissionais da área de reabilitação, se manifestaram acerca da questão levantada pelo ortoprotesista Marcelo Carvalho, do Rio de Janeiro. Além de pertinentes com a indagação suscitada, as opiniões registradas trouxeram críticas, reflexões e elucidações adicionais sobre diversos fatores que compõem o processo de reabilitação com prótese de um amputado.

Antes de discutirmos em que sentido a ‘boa prótese é um trabalho único que nunca está concluído’, aonde chegamos com a discussão anterior? O consenso estabelecido pela maioria que opinou foi o de que a questão comercial não deve vir em primeiro lugar na hora de indicar componentes para uma prótese e sim o que é mais adequado para cada tipo de amputação e perfil de paciente, isso porque nem sempre o que é mais moderno é indicado para qualquer pessoa.

Apesar disso, em boa parte dos casos isso não acontece, prevalecendo quase sempre o aspecto capitalista de profissionais que só preocupam em vender o produto, sem se preocupar com a reabilitação integral do amputado. Os depoimentos dos usuários de prótese no quesito “orçamento” falam por si, e os argumentos apresentados pelos protesistas, apesar de plausíveis, não justificam a variação de quase 100% para o preço de um mesmo equipamento em ortopedias diferentes.

ACREDITE – Na opinião do ortoprotesista Francisco Gomes, a definição de uma boa prótese pode ser comparada à relação do médico com o paciente na hora de diagnosticar e tratar a doença: requer confiança e envolvimento das duas partes. “Assim corremos menos riscos de errar”, afirmou. Além de acreditar, o amputado precisa se submeter às mudanças propostas, sobretudo porque muitas descobertas tendem a ser feitas após a protetização, principalmente quando esta promove trocas de tecnologia e/ou componentes.

Creio que o Chico tenha razão. Nesses dias em que estou no Centro Marian Weiss (CMW) tive o privilégio de conhecer uma paciente biamputada que tem se revelado uma verdadeira “caixinha de surpresa” para o pessoal da clínica. Por mais que se esforcem em atender às expectativas dela, diversos fatores imprevisíveis ocorreram, desde a inadaptação a certos tipos de liner à necessidade de confeccionar vários encaixes. O que quero dizer? Embora não seja culpa de ninguém, uma solução precisa ser encontrada para o caso, mesmo que custe perda de tempo e de materiais. E, caso não haja confiança e envolvimento com o profissional, a paciente pode facilmente desanimar e querer procurar uma segunda opinião.

OUTRAS QUESTÕES – Na opinião de Ian Guedes, diretor do CMW, “a visão do profissional que avalia o paciente e faz a prescrição da prótese é vital para indicar um equipamento que esteja à altura das expectativas e capacidades do amputado”. Quem é o paciente? Do que ele precisa? Quem está cuidando dele junto com o protesista? O que ele espera da protetização? Qual é o nível de conhecimento e educação que o paciente tem a respeito do processo de reabilitação? Pode-se educá-lo mais ou colocá-lo em contato com outros pacientes com casos similares? Tudo isso precisa ser considerado, na opinião do diretor.

O empresário destaca como etapas importantes de uma protetização bem sucedida: coto bem operado e preparado, fabricação do encaixe de prova – um trabalho manual e personalizado -, alinhamento correto da prótese e treinamento com o equipamento. “Um paciente bem treinado, com um encaixe confortável e prótese bem alinhada permite que ele ande sem maiores dificuldades, mesmo com componentes populares e de baixo custo”, garante. O contrário também é verdadeiro. Um paciente com coto mal operado e preparado, sem treino adequado, encaixe ruim e prótese mal alinhada não andará bem, mesmo com os componentes mais caros e modernos.

VALOR – Como vimos, a boa prótese nem sempre é a mais cara. Apesar disso, a maioria dos pacientes com quem converso pela internet expressa grande descontentamento com o quesito “preço”. Como se não bastasse o alto investimento que precisa ser feito – um paciente com amputação transfemural paga em média o valor de um carro popular para fazer uma prótese com joelho hidráulico como o 3R80 –, a variação é muito grande, a depender da ortopedia escolhida. O que justifica isso? Para os amigos Túlio Fuzato e Cleberson Maia, do Rio de Janeiro, nada explica tamanha variação e eles têm razão.

O comentário deixado por Edwania Amorim, para quem “diferenças exorbitantes dos valores das próteses, cujos componentes são os mesmos, é mesmo algo que preocupa”, revela que é preciso encontrar o meio termo. Entre as dúvidas que surgem, o medo de estar sendo lesado financeiramente e/ou não estar sendo assistido por um bom profissional. Para ela, é normal haver diferença de preço do encaixe, visto que é confeccionado pelo protesista, bem como em razão dos ajustes, mas no que se refere a componentes, a diferença de preços deveria ser menor.

Ratifico então a necessidade de o amputado procurar conhecer um pouco mais o vasto mundo das próteses. A dica é pesquisar sobre o assunto na internet, conversar com outros usuários, com objetivo de procurar conhecer a fundo as opções de produtos e componentes existentes no mercado e quais deles seriam mais indicados para o seu caso. Além disso, é vital um alto nível de conhecimento e educação sobre o processo de reabilitação, bem como o local onde a prótese será confeccionada. Com isso em mente, acredito que o risco de ser iludido é menor.

OPINIÃO – Mas ainda resta responder a pergunta que abriu este post, bem como a “pimentinha” jogada pelo Ian Guedes para uma nova discussão: protetização é a mesma coisa que reabilitação? Vejo a protetização como uma das etapas da reabilitação, porém dissociada. Isso porque, mesmo antes de usar perna mecânica, já me considerava reabilitado, por levar uma vida com autonomia e independência. Não preciso necessariamente de uma prótese para atingir esse patamar de qualidade de vida, embora a concorde que a colocação de uma perna mecânica proporcione um “algo a mais” ao processo de reabilitação.

E você, o que acha? Concorda que a boa prótese é um trabalho que nunca está concluído? E quanto à reabilitação, é a mesma coisa que protetização? Deixe sua opinião.

Leia aqui os comentários na íntegra.

Passo Firme – 02.12.2011

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17 comentários em ““Boa prótese é um trabalho único que nunca está concluído”

  1. UMA BOA PRÓTESE É UM REFERENCIAL IMPORTANTE NA VIDA DE AMPUTADO, MAS, REALMENTE NÃO É ÚNICO, JAMAIS. A PRÓTESE PARA ALCANÇAR SEU OBJETIVO REQUER UM CONJUNTO DE FATORES QUE ENVOLVEM A QUESTÃO. UMA BOA PRÓTESE TRADUZ APENAS O INÍCIO. PARA CHEGAR A ATINGIR SEU PROPÓSITO É PRECISO QUE HAJA UMA SOMA DE ITENS COMO UMA BOA REABILITAÇÃO, POR EXEMPLO. E PARA ATINGIR SEU PONTO ALTO, É PRECISO DE ALGO QUE ESTÁ IMBUÍDO DENTRO DO SEU FUTURO USUÁRIO, QUE É A FORÇA DE VONTADE. ESSE QUESITO FARÁ COM QUE A DENOMINADA BOA PRÓTESE FIQUE MELHOR, POIS O RESULTADO DESSA FORÇA CONJUNTA FARÁ COM QUE O PACIENTE CONSIGA DEAMBULAR ENFRENTANDO E SUPERANDO TODOS OS DESAFIOS DÍÁRIOS ATÉ ATINGIR UMA MARCHA COM DESENVOLTURA, EQUILÍBRIO E SEDE DE ANDAR, FOME DE VIDA, DESEJO IGUAL AO COMPARADO DE UMA CRIANÇA, AO DAR OS SEUS PRIMEIROS PASSOS ATÉ ADQUIRIR, GRADATIVAMENTE, A CONFIANÇA PARA CAMINHAR, CAMINHAR E CAMINHAR, SEM MEDO DE SER FELIZ EM TODA A SUA PLENITUDE.

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    1. “DESEJO IGUAL AO COMPARADO DE UMA CRIANÇA, AO DAR OS SEUS PRIMEIROS PASSOS”

      AMIGA RITA, VC FALOU E DISSE COM A COMPARAÇÃO ACIMA. APRENDER A ANDAR DE PRÓTESE É UM TRABALHO PAULATINO, COMO O CAMINHAR DE UMA CRIANÇA QUE ACABA DE DAR OS PRIMEIROS PASSOS. A CONSOLIDAÇÃO DE UMA MARCHA SEGURA E CONFIANTE, MESMO QUE NÃO TÃO PERFEITA, SÓ SE ADQUIRE COM O TEMPO. O IMPORTANTE É NÃO DESISTIR NUNCA.

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  2. Concorda que a boa prótese é um trabalho que nunca está concluído? E quanto à reabilitação, é a mesma coisa que protetização?

    Há que se considerar muitos fatores envolvidos na Protetização e na Rebilitação .
    Em tese , são processos diferenciados mas se ocorrem ao mesmo tempo podem ser considerados como Reabilitação Protética , especificamente focado em amputações, afim de promover complementação com
    ação e bem estar . Exemplificando a protética dental , um paciente com extração total e dentadura está
    reabilitado ? … Então , levantaremos muitas questões a respeito …
    Ocorre que o modelo serial existente na maioria dos órgãos governamentais já não preenche as necessidades do individuo , posto que hoje , as informações veiculam muito rápido e cada vez mais os pacientes buscam suas próprias respostas .Cada ser humano é um universo !

    Boa prótese é aquela que faz com que o paciente tenha suas expectativas superadas .

    Até porque muitos sómente querem deambular , outros praticar esporte e ainda aquele que pensava em sómente deambular descobre que pode correr e subir escadas e quer evoluir na sua protetização…
    Por isso acho que a protetização é um trabalho continuo de mudanças, de ajustes , de trocas , melhorias…
    Vale ressaltar que as próteses tem um tempo de vida útil também associado ao desgaste e não sómente a capacidade do componente . O Ser humano é uma máquina em movimento e insaciável. Este movimento continuo em busca da melhor protetização e nunca a definitiva , é saudável desde que por propósito.
    Tem muitos ” achismos ” por ai e por dualidade (dois principios ) os pacientes que acham muita coisa quase sempre não descobriram nada , pois quando se propôem a serem protetizados e reabilitados descobrem que a cada profissional um conhecimento especifico , e em conjunto muito mais profissionalizado o serviço.
    Dai se concluir que protetização envolve serviços e qualidade e resultados .
    Valores estão intrinsecamente associados ao profissional e a estrutura de sua empresa , porque legalidade , grau de formação e serviços disponibilizados podem fazer a diferença . Ortopedia técnica também é um segmento em ascenção e a promoção da valorização do profissional exige que ele se especialize , se atualize…Enfim , não é um segmento barato , nem por tecnologia , nem por formação .

    Então se uma prótese é um trabalho que nunca se conclui e reabilitação não é o mesmo que protetização , o que é mais importante ? Protetizar ou Reabilitar ?

    Um forte abraço “darling” Lázaro ,

    Silvia Gomes – Consultora Técnica e Administradora
    Casa Ortopédica

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  3. Acho que como tudo na vida, nunca encontramos a excelência… Ainda mais uma prótese que é algo mecânico… Aí faço uma pergunta: Quanto tempo você aguenta ficar com seu carro? Se você tem dinheiro para trocar de carro, você passaria 10 anos com este mesmo carro?
    Hoje a tecnologia fica defasada em pouco tempo, seja para próteses, celulares, enfim… tudo que o ser humano venha a produzir.
    Por isso acho que não existe prótese perfeita. O que acontece, é que por necessidade nós nos adequamos à aquela prótese que temos condições de comprar.
    Daqui 20 anos vamos achar o C-Leg totalmente obsoleto.
    Em 1982, ví uma prótese de alumínio, tinha joelho com freio, vinda da alemanha, era bem mais leve do que as próteses de madeira e tinha um visual futurista pra época… Todos no hospital das clínicas ficavam boquiabertos de ver aquele homem caminhando com aquilo… Hoje em dia, nem o SUS “dá” aquilo pra alguém…
    E um Protesto… Se você pudesse produzir o C-Leg em casa, não gastaria R$ 2.500,00 em peças… não justifica custar R$ 35.000,00 para a ortopedia… e nem justifica a ortopedia cobrar 80.000,00 pra instalar na gente… então acho abusivo que estas empresas fazem conosco…

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    1. Robertão,

      Concordo que não existe prótese perfeita, apesar de tanta novidade surgir a cada dia, como a proliferação de um “gremlin”. Acredito que o alto valor comercial que se agregam a esses componentes vem disso, da novidade constante e da falta de concorrência no segmento. Fala-se tanto de “Otto Bock”, sendo que no mercado existem n fabricantes imbuídos em produzir tecnologia de ponta tão moderna quanto, e por um preço mais acessível. Creio que o preço de uma prótese só será mais justo quando esta distância entre os fabricantes diminuir.

      Lázaro

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    2. O valor de um C-Leg ou qualquer outro joelho de alta tecnologia, gasto em pesquisa de material e de produção em linha ,com qualidade, certamente é alto. Custar o valor que custa não é , a meu ver, justificável com motivos honestos. Uma Cia como a Otto Bock quer recuperar seu investimento e isso é normal. A pouca concorrência, a alta margem de lucro da atividade e o mercado que “aceita” pagar os valores altos praticados, marketing agressivo da empresa que fabrica contribuem para essa valorização do produto. Certamente que uma TV de LED, hj em dia tem mais tecnologia que qqer prótese, e existe uma concorrência “esperta” e atenta que apresenta tecnologia semelhantes a todo instante, barateando os produtos a cada geração. Com telefones acontece o mesmo, e o mercado também é muito maior em escala . O ideal seria o acesso a essas próteses para todos, de maneira que a produção desses joelhos da alta tecnologia despertassem interessa de outras empresas para haver concorrência. Certamente isso não acontecerá tão cedo e nem é desejo dessas Cias que isso ocorra . Há muito que se fazer nesse ramo, mas sem incentivo e com a política de concessão de próteses adotada pelo governo que cada vez mais cria centros de protetização em massa sem profissionais capacitados ( de onde tirá-los?) ao invés de adotar uma tabela unica de preços que acabaria com licitações que adotam o menor valor para concessão para realmente incrementar o ramo, ao invés de acabar com ele, não haverá mudança nesse quadro. Sabemos por experiência que onde a administração publica coloca as mãos ( e os pés) os custos sobem muito. Joelhos ficarão mais caros, próteses e componentes também. Quem controlaria esses valores, o governo? A tabela única e a cobertura com a adesão de planos de saúde para concessão são uma chance de mais pessoas obterem próteses da alta tecnologia, de empresas de protetização sobreviverem com margens menores e componentes mais baratos pela negociação que haveria entre fabricantes x ortopedias chegarem ao mercado.

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      1. Erros na redação, que ocorreram foram obra de uma falta de revisão, que deixo para jornalistas formados repararem. Cada um no seu quadrado. Abraço.

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  4. Vejo que a discussão migrou para valores e capacitação , serviços …
    Muitos segmentos no Brasil tem valores agregados e repassados que para nós consumidores são ” irreais ” É preciso entender que ortopedia técnica é o fechamento de um segmento médico , cirurgião-ortopedista-angiologista-terapeutas-protesista ortesista . ( Na América e Europa esta especialidade só se estabelece com formação acadêmica )
    Acaso existem outros cirurgiões com o mesmo “know how” de Ivo Pitanguy ?
    De certo que sim , mas ele é uma referencia como profissional e contribuição para a especialização.
    E paga quem quer ou pode , ou enfrentam a fila na Santa Casa …
    Enfim chegar a uma boa prótese com um bom profissional e com uma boa assistência pós aquisição , tem custos altos , os valores não beneficiam os componentes mas o profissional , a empresa e a segurança de que o paciente não vai sair pior do que entrou , nem ficar desassistido …
    Existe concorrência , sim : componentes sem registros , ex funcionários dito profissionais , empresas sem registros , localização e aparência de hospital falido ,
    Então , o que é bom custa caro , porque é confiável !!!
    O que precisa ser mudado é o sistema publico , porque estes sim deveriam funcionar com melhor assistência , materiais e profissionais , além de prazos , claro !
    O segmento privado tem muita contribuição a oferecer ao 3º setor , mas se o governo ainda nem aprovou a profissão , com a PL 5635 ainda tramitando em Brasilia desde 2005 , como melhorar o mercado ?
    As empresas reconhecidas em mercado são empresas familiares de segmentos há mais de 50 anos , certamente que através delas o mercado se organizou e tem evoluído , mas sem incentivo e reconhecimento é improvável que a tecnologia alcance excelência com valores módicos .
    Preferiríamos que muito mais pacientes pudessem ser protetizados , o mercado ficaria aquecido !!!
    Forte abraço, especial a você Lázaro !

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