Amputar: uma escolha impensável para muitos que precisam dela

Há cinco anos, Ann Kornhauser (foto) estava andando com seu cachorro em Hicksville, NY, quando os ossos em seu pé esquerdo racharam de forma repentina. Os médicos descobriram que ela tinha um raro tumor, amputaram metade do pé e deram-lhe uma prótese, mas o equipamento a deixava com dores constantes. Muitas vezes Ann Kornhauser chorava em seu carro depois de idas ao supermercado porque temia levar os sacos de compra para casa. Foi então que seu protesista propôs uma solução: amputar a perna em nível abaixo do joelho.

“‘Membros artificiais tinha melhorado muito’, disse ele, e eu poderia me beneficiar de novos modelos de alta tecnologia”, recorda-se Kornhauser. A ideia de perder o resto de sua perna – que estava saudável o bastante – parecia absurda e assustadora. Mas após dois anos de desconforto, a senhora Kornhauser decidiu fazer a cirurgia. “Toda a minha família disse foi: ‘Você vai ficar sentada lá sem uma perna!’ Mas eles não sabiam o que eu sabia”, disse ela. “Pessoas correram maratonas sobre próteses. Eu sabia que teria uma vida novamente”.

Durante uma recente entrevista, a avó de 63 anos, alegre puxou as calças para mostrar uma prótese de perna, com uma superfície muito parecida à da perna sã. A perna mecânica que Kornhauser utiliza tem uma aparência realista, com uma pele de silicone personalizada e um tornozelo que pode ser ajustado para várias alturas de salto; vários pés protéticos nos EUA possuem sistemas de tornozelo com microprocessadores, incluindo sensores de movimento, que são uma verdadeira maravilha. “Eu era capaz de andar novamente”, disse ela. “E parece real”, acrescenta.

Aproximadamente dois milhões de pessoas nos Estados Unidos estão vivendo com amputações, de acordo com a Amputee Coalition of America (Coalizão de Amputados das América), um grupo de defesa nacional daquele país. Mas, como membros artificiais são infundidos com tecnologia cada vez mais sofisticada, muitos amputados estão fazendo uma escolha, uma vez impensável. Em vez de fazer todo o possível para preservar e viver com o que resta de seus membros, alguns estão optando por amputar mais extensivamente para recuperar o máximo possível a funcionalidade do membro perdido.

Ocasionalmente, essa escolha é feita por alguém com uma mão ou braço ausente. Mas o mais comum são as amputações abaixo do joelho, que permitem pacientes – como a citada no início da reportagem – tirar proveito de próteses robóticas modernas e realistas, com capas personalizadas, motores e microchips que reproduzem movimentos humanos naturais. O Sul Africano corredor Oscar Pistorius, um biamputado, foi até mesmo acusado de ter uma vantagem injusta sobre concorrentes, por utilizar próteses de corrida feitas de fibra de carbono.

A DIFÍCIL DECISÃO – “Amputados estão percebendo que podem fazer tudo o que eles fizeram antes”, afirma Amy Palmiero (foto), 39 anos, ultramaratonista célebre que perdeu sua perna esquerda em um acidente de moto quando ela tinha 24 anos. Ela agora trabalha em uma clínica protética em Long Island, EUA. “Embora a perda de um membro ainda seja um trauma médico, muitos amputados passaram a aceitar as melhorias biônicas advindas da tecnologia”, observa Palmiero.

Um dia, no verão de 2003, David Rozelle (foto), um capitão do Exército, estava em um hospital de Bagdá com o pé direito mutilado por uma mina terrestre. Os médicos o amputaram um pouco acima do tornozelo. Com um pé artificial, o capitão Rozelle, que vive perto de Boulder, no Colorado, conseguiu recuperar parte de sua antiga vida. Ele competiu no triatlo e retornou ao serviço no Iraque, ele é agora um dos principais capitães. Após dois anos e meio de sua amputação, ele disse ao seu cirurgião que queria amputar mais nove centímetros de sua perna para que ele pudesse se beneficiar de uma nova prótese abaixo do joelho. O médico ficou horrorizado.

“A comunidade médica está completamente focada em resgatar membros”, disse o major Rozelle, atualmente com 39 anos. “Há realmente uma desvantagem de ter o comprimento do membro extra, porque você não pode caber corretamente em dispositivos protéticos”, explica. Ele fez a operação e agora é dono de vários modelos sofisticados de pernas robóticas, que ele usa para as atividades cotidianas e para seus esportes favoritos, como o esqui. Muitos amputados optam por cirurgias mais extensas são atletas como Rozelle Maior e têm esperança de recuperar a vida ativa.

Familiares do paciente que recebe do médico ou protesista a indicação de amputar um membro ou parte dele para se adaptar melhor a um membro artificial ficam compreensivelmente confusos, preocupados e raramente são tão entusiasmados com os procedimentos drásticos propostos. Michael Laforgia (foto), que inicialmente perdeu os dedos do pé esquerdo devido uma bactéria contraída após meningite – conta que levou muito tempo para se convencer, após recolher testemunhos de outros amputados que tinham feito o mesmo.

Apesar da aparência natural de algumas, funcionalidade parece ser o aspecto mais importante para a decisão de usar as próteses modernas. Hugh Herr, que lidera o grupo de pesquisa biomecatrônicas no Media Lab do Massachusetts Institute of Technology (MIT) diz que muitos “têm pouco desejo de que o membro artificial pareça humano”.

AVANÇOS – Novas pesquisas estão fazendo a tecnologia evoluir rapidamente. Herr fundou um centro de pesquisas chamado iWalk, que produzirá próteses de nova geração. O artigo do NYT revela que o primeiro produto da empresa será um pé e tornozelo biônico, resultante de meticulosa modelagem de músculos, tendões e reflexos nervosos usados no andar humano. O pé artificial pode perceber as ações do usuário e do terreno onde a pessoa está andando e se ajustar de acordo (veja a matéria).

Na Universidade Johns Hopkins, pesquisadores estão trabalhando em criar próteses de membros superiores mais modernas para soldados amputados. O objetivo é que os novos modelos não apenas sejam semelhantes a membros naturais em destreza, força, tamanho e peso, mas que também possam ser comandadas pelo cérebro através de uma rede de eletrodos implantada no córtex cerebral ou em nervos periféricos. Esses eletrodos captariam sinais nervosos e os transmitiriam ao membro artificial.

O preço das próteses modernas, no entanto, não é barato. A de Herr deverá custar cerca de 70 mil dólares e as seguradoras geralmente cobrem apenas as próteses básicas e não membros artificiais de ponta. Algumas dessas próteses ainda estão há anos de serem lançadas, mas a tecnologia atual já está permitindo grandes avanços na qualidade de vida dos amputados.

Fonte: The New York Times

Passo Firme – 23.05.2012
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4 comentários em “Amputar: uma escolha impensável para muitos que precisam dela

    1. ERICA em diversos casos não temos saídas ou melhor opções estamos nas mãos dos médicos eles sim sabem o que é melhor pro paciente .como exemplo de uma bactéria chamada (stafilococus aureus ) bactéria que causa muita amputação. ou amputa ou morre qual melhor opção ? a atitude certa é em primeiro lugar a vida …tudo se adapta tudo se acostuma o negocio é viver e bem . sou amputado a 2 anos e a melhor opção foi a amputação. forte abraço

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