Próteses para água já disponíveis no mercado brasileiro

Lázaro Britto

Para muitos amputados de perna, o simples ato de caminhar – de prótese ou de muletas – em locais molhados e escorregadios representa um verdadeiro desafio. No caso das próteses, a maioria dos componentes usados nos equipamentos convencionais tem restrição de uso em atividades aquáticas como banho, natação e hidroginástica, por exemplo. Agora, amputados brasileiros que desejam uma prótese para uso em água contam com mais uma opção: a fabricante multinacional Ottobock acaba de lançar no Brasil a sua linha de próteses para água Aqualine, que chega com a missão de brigar pela lacuna ocupada até então pela Aqualimb, da inglesa Endolite, presente no mercado brasileiro há alguns anos.

De acordo com o Supervisor de Negócios de Órteses & Próteses da Ottobock do Brasil, Jean Barreto, a linha de próteses Aqualine é fruto de uma pesquisa desenvolvida com amputados do mundo todo. “Descobrimos que ter uma prótese que permita o uso na água é uma das principais expectativas de quem é amputado. No Brasil, essa necessidade é acentuada por fatores como o clima tropical do país e o imenso litoral onde a maior parte da população se concentra”, afirma. A Aqualine foi um dos destaques da Ottobock durante a Feira Mundial de Ortopedia Técnica, realizada no mês passado em Leipzig, Alemanha. No Brasil, a prótese foi apresentada na 11ª Feira Internacional de Tecnologias em Reabilitação, Inclusão e Acessibilidade (Reatech), realizada no mês de abril, em São Paulo.

Antes que alguém pergunte, porém, próteses projetadas especificamente para uso na água não é novidade. Além da Endolite, que já está no mercado brasileiro desde 2004, duas empresas nos EUA – a Aulie Devices e a Sym Biotechs  – já trabalham com próteses para água desde a década de 80, embora não possuam representação no Brasil. O joelho XT9, da Sym Biotechs, por exemplo, permite ainda a prática de atividades esportivas como esqui, snowboard e patinação no gelo.

CARACTERÍSTICAS – Confeccionado em material impermeável, o sistema modular das próteses oferece diferentes opções para amputados transtibiais e transfemorais. Todos os componentes (pé, tubo, joelho e encaixe) foram especialmente adaptados para aumentar a segurança e a funcionalidade da prótese em qualquer ambiente aquático, seja de água doce, salgada, ou mesmo clorada. “O joelho da Ottobock não possui sistema de freio e sim uma alavanca manual que o paciente aciona quando entra na água”, explica Jean Barreto. O joelho da Endolite também funciona com trava, para evitar que a resistência da água acione a articulação e, consequentemente, faça o usuário cair.

Pessoas com amputação bilateral – transtibiais e/ou transfemorais – também podem ter uma prótese para água, desde que alguns cuidados sejam obedecidos. “Em casos de amputação bilateral transfemoral, somente com o joelho sempre travado”, adverte Jean Barreto, da Ottobock, por questões de segurança. Já o protesista e fisioterapeuta Anderson Nolé costuma indicar aos biamputados acima do joelho que o procuram um método chamado “Stubs” para entrar na água. “Os stubs nada mais são que os encaixes da prótese com um pequeno prolongamento sem joelho, com tubo e um pé que pode ser redondo ou em formato de ‘canoa’”, explica o protesista, que é proprietário de uma empresa de próteses em Sorocaba, São Paulo.

Em relação à suspensão utilizam-se os mesmos sistemas já existentes. Para evitar que o encaixe da prótese solte do coto ao entrar na água, Anderson Nolé, que trabalha com os produtos da Endolite, usa em seus pacientes tansfemorais um encaixe em polipropileno ou em fibra de carbono e, para ajudar na sustentação, um coxal em neoprene, mesmo material das roupas de mergulho. “Não costumo indicar um sistema de cartucho com liner, pois diminui muito a vida útil da meia de silicone”, explica. “Para amputados abaixo do joelho, o cartucho normalmente é utilizado com um sistema de borracha tipo EVA, podendo usar também uma joelheira de neopreme”, acrescenta.

O pé utilizado na prótese para água foi preparado apenas para o ambiente aquático. Sem articulação funcional (tipo Sach) e com o interior em nylon, o único diferencial é que o solado é antiderrapante, o que permite ao paciente andar descalço. A prótese da Endolite vem com um alinhamento pré-definido, que seria um salto zero ou sem salto, para utilização também ou com um chinelo ou uma sandália, que normalmente não tem elevação significativa do calcanhar. Já o modelo da Ottobock possui um tubo com angulação para ajustar o salto de acordo com a necessidade do usuário.

VANTAGENS – “Acredito que a maior vantagem de uma prótese a prova d’água é aumentar o grau de liberdade do paciente, tendo em vista que este não terá restrições, por exemplo, de ir a uma praia e entrar na água, ou ir para uma lagoa ou um rio para pescar”, afirma o protesista Anderson Nolé. “Por outro lado se for pensar em banho, o paciente pode tomar banho de pé com este tipo de prótese, porém, obrigatoriamente após o banho terá que tirar a prótese para higienização do coto”, pontua Nolé.

Outra vantagem é que uma prótese para água é mais barata que uma prótese comum, além de possuir vida útil maior – de quatro a sete anos, em média. “Levando em consideração que é uma prótese usada somente para atividades esporádicas sua durabilidade é grande”, diz Nolé. Segundo o protesista, o investimento médio necessário para se fazer uma prótese desta com os componentes da Endolite pode chegar a R$ 12 mil, dependendo do nível de amputação do paciente.

Já para quem optar pelo modelo da Ottobock esta variação pode oscilar, uma vez que cada ortopedia possui critérios diferenciados para o cálculo de suas margens. No Centro Marian Weiss (CMW), clínica de reabilitação de amputados que fica em Vila Madalena, São Paulo,“uma prótese com os componentes Aqualine com liner de uretano e joelheira com pré flexão da Ottobock parte dos R$ 16 mil para um amputado transtibial”, afirma o diretor administrativo do CMW, Ian Guedes, ressaltando que o valor da prótese depende de diversos fatores.

DESVANTAGENS – O principal conceito de qualquer prótese para água é apenas o de segunda prótese ou prótese para banho, o que pode ser considerado uma desvantagem por alguns. Jean Barreto, da Ottobock, não recomenda o uso da Aqualine no dia a dia. “Por ter um joelho hidráulico livre, o paciente precisa ter um bom controle de coto ao usar a prótese fora do ambiente aquático, sem falar que o pé utilizado não possui resposta dinâmica, o que prejudicaria a marcha do paciente no dia a dia”, adverte.

Já Nolé explica que indica para seus pacientes que querem uma prótese a prova d’água que a façam pelo menos com um ano de uso de prótese convencional. “Assim, o paciente estará mais “experiente” em caminhar mesmo em pisos mais escorregadios, e o mais importante, o coto provavelmente já estará estabilizado, evitando custos adicionais com novos encaixes, caso o coto atrofie”, analisa.

OPINIÕES – “Nunca aceitei a imposição de não poder entrar na água com minha prótese”, explica Frederico Fernandes, que perdeu a perna direita na altura do joelho devido a um acidente automobilístico e usa uma prótese com joelho hidráulico que não pode ter contato com água. “Como sempre gostei de praia e natação, assim que pude fiz uma prótese para banho e não me arrependo. Como já tinha dois anos de protetizado, foi bem mais fácil a adaptação, embora reconheça que uma prótese para água seja um tanto rudimentar, se comparada a prótese que uso no dia a dia”, explica Fred, que utiliza um modelo da Endolite.

Apesar disso, ainda há quem prefira o contato com a água sem precisar usar qualquer equipamento. “Nada melhor que nadar sem nada te apertando”, brinca Luiz Fernando, amputado transfemoral que pratica alguns esportes como surf e esqui aquático. “No início pensei em fazer uma prótese dessas para uso na água, mas concluí que não vale à pena usar prótese no mar ou na piscina, pois limita muito e a prótese pouco ajuda para nadar ou mergulhar. Sempre pego onda com e sem prancha e posso garantir que a ausência da prótese não incomoda. No caso do eski aquático, reconheço que é mais difícil só com um pé, mas é muito mais emocionante”, conclui.

No vídeo abaixo, um amputado transtibial demonstra natação com uma prótese para água:

Leia também:

Dicas para praticar natação com próteses para água

Passo Firme – 12.06.2012
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10 comentários em “Próteses para água já disponíveis no mercado brasileiro

  1. Me chamo Dirce e nunca tinha ouvido falar sobre prótese a prova d’agua, sempre tive vontade de entrar na agua e nca me disseram nada disso, faço prótese na AACD e sempre pergunto sobre isso, nossa que gente desinformada, poderia mto bem falar neh, e agora eu gostaria de saber aonde posso procurar me informar mais a respeito, por favor me ajudem????
    desde já agradeço
    Dirce

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    1. Já uso as próteses transtibial gostaria de saber onde compro as de banho? Pois as minhas não posso molhar! Desde já agradeço pela sua atenção.

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  2. Tenho uma amputação transfemural no membro inferior esquerdo a 10 anos , não imagina ter uma prótese propria para piscina, depois que amputei minha perna nunca mais frequentei praia , meu sonho é pode ir no praia novamente, gostaria de saber mais sobre esta prótese.

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  3. Tenho uma amputação transfemural no membro inferior esquerdo á 10 anos, nunca tinha ouvido falar nesta tecnologia, prótese que pode entra em piscina, desde quando amputei a perna nunca mais frequentei praia, meu sonho é pode incluir esta rotina em minha vida, gostaria de saber mais sobre esta prótese. Grata

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  4. Olá boa tarde a todos, pois eu tenho amputação trans tibial e uso prótese que ganhei pelo INSS, pé flexível de fibra de carbono e alumínio,vou a praia com ela,tiro e banho normal com pouco de dificuldade mas dá pra banhar,pesco e faço muita coisa, não molho lógico, mas não interfere.Essa ai, pelo que entendi só serve pra banhar, pois não pode ser usada diariamente.

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