Novidade no tratamento de Osteossarcoma: quando a toxicidade é “melhor”

Helder Felix*

O objetivo do tratamento oncológico é obter a maior sobrevida possível para os pacientes. Em última análise, procura-se curar o máximo número de pacientes. Adicionalmente, procura-se minimizar a toxicidade dos esquemas de tratamento utilizados, ou reduzindo doses ou usando drogas para prevenir efeitos adversos. Esses têm sido, também, os objetivos gerais do tratamento dos pacientes com osteossarcoma, o mais comum dos tumores ósseos da infância e adolescência. Resultados recentemente publicados, porém, podem indicar que os efeitos colaterais da terapia para osteossarcoma podem ser, de certa forma, “bem vindos”.

O grupo cooperativo europeu para o tratamento do osteossarcoma, European Osteosarcoma Intergroup (EOI) realizou três ensaios clínicos controlados e randomizados entre 1982 e 2002, incluindo 1067 pacientes, criando o maior grupo de pacientes com osteossarcoma seguidos prospectivamente. Os autores do estudo em questão usaram as informações combinadas de 533 pacientes que foram tratados com o “tratamento padrão” (grupo controle) nestes ensaios. O maior grau de toxicidade que cada paciente experimentou foi usado nos estudos comparativos. Os autores realizaram uma análise retrospectiva comparando a toxicidade com a sobrevida e com a resposta à quimioterapia (avaliada na cirurgia, realizada após a quimioterapia).

Os resultados indicam que os pacientes que experimentaram mucosite grave (grau 3-4) tiveram melhor sobrevida que os demais (quase 75% com mucosite grave tiveram sobrevida prolongada, contra menos de 50% daqueles que não tiveram mucosite). Também tiveram impacto favorável na sobrevida a ocorrência de neuropatia periférica e trombocitopenia. A ocorrência de efeitos colaterais também teve impacto favorável na sobrevida livre de progressão.

A relação entre toxicidade e prognóstico em pacientes com câncer não é nova. Desde a década de 80, evidências acumulam-se mostrando que a toxicidade hematológica, especialmente a neutropenia, têm valor prognóstico em pacientes com câncer de mama, ovário, estômago e pulmão, além de crianças com leucemia linfóide aguda. A novidade neste trabalho foi a comprovação da associação da toxicidade da quimioterapia com o prognóstico em pacientes com osteossarcoma, além do papel mais importante da toxicidade não hematológica, verificada pela primeira vez.

Por quê ocorre esta associação? Supostamente, pacientes que metabolizam mais rápido os quimioterápicos, ou são relativamente resistentes a seus efeitos, podem apresentar um menor efeito antitumoral do tratamento. Muito pouco é conhecido sobre a variação de resposta e metabolismo à quimioterapia entre os pacientes com osteossarcoma. Existem estudos defarmacogenética em andamento, os quais podem esclarecer o papel da variação individual na resposta ao tratamento em pacientes com osteossarcoma.

No futuro, será possível individualizar as doses e esquemas de tratamento para cada paciente, baseado em seu perfil farmacogenético, uma conquista que é chamada genericamente de “medicina personalizada”.

Fonte: Blog Pharmakon Pediatrics

* Médico e especialista em Farmacologa. Graduado na Universidade Federal do Ceará (graduação em Medicina e, depois, mestrado em Farmacologia). Colabora em pesquisas e orientação de estudantes do Departamento de Farmácia da Faculdade de Farmácia, Odontologia e Enfermagem da Universidade Federal do Ceará, em Fortaleza. Pediatra, fez especialização em hemato-oncologia, trabalha no Centro Pediátrico do Câncer, Hospital Infantil Albert Sabin, em Fortaleza.

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Passo Firme – 1º.07.2012
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