Garoto ajudado por Rogério Ceni tem perna mecânica quebrada e aguarda nova ‘forcinha’ do ídolo

Em um campo de futebol improvisado na periferia de Fortaleza, perto do estádio Castelão, Carlos Roney correu de um jeito meio desengonçado para interceptar um passe do adversário. De repente, a bola mudou de direção. E Roney assustou-se quando seu pé direito se desprendeu do resto da perna, produzindo um estalo agudo. O menino de 14 anos se desequilibrou. Ficou um tempo imóvel, penso para um lado, vendo a bola que ele caçava ficar cada vez mais distante.

Não sentiu, porém, nenhum pingo de dor. Do joelho para baixo, as pernas de Roney não são de carne e osso, mas próteses de alumínio e plástico, com articulações e parafusos de metal. Um desses parafusos acabara de arrebentar, e Roney teve que ir para o estaleiro. Por não ter como andar, não foi à escola naquele dia.

Sempre que essa situação acontece (já foram várias vezes), o garoto volta a alimentar o sonho de conseguir próteses mais resistentes, apropriadas para jogar, correr, pular. Em sua casa de dois cômodos no bairro do Jardim União, ele acredita que apenas uma pessoa pode conseguir para ele aquilo que busca. Carlos Roney tenta falar com Rogério Ceni.

Na mesma noite do último acidente com sua prótese, o menino conversou com a reportagem do UOL Esporte e relembrou o dia mais incrível da sua vida, quando defendeu um chute do goleiro, capitão e ídolo, em outubro de 2010. O Castelão tinha 32 mil pessoas. Roney tinha apenas suas pernas naturais, curtas, amputadas por uma grave doença.

“Foi muito emocionante. Eu nunca esperaria encontrar ele. Ele era meu ídolo, me tratou muito bem, foi atencioso e me levou para falar com todos os jogadores do São Paulo”.

Rogério também o levou a uma clínica de São Paulo e conseguiu aquelas próteses que substituiriam as pernas de Carlos. Uma dessas mesmas próteses acabara de sucumbir sob o peso do adolescente. O garoto cresceu, mas as pernas artificiais não. Ficaram apertadas, às vezes fazem doer.

“Se eu pudesse falar com ele, pediria para dar uma forcinha, para eu conseguir essas próteses mais novas, para futebol. Ia ficar muito melhor para mim, a minha vida é jogar bola, e com essa que eu estou, é um pouco difícil.” A mãe e um amigo tentam há um ano falar com a direção do São Paulo e dizem não conseguir.

HISTÓRIA – Quando o time foi a Fortaleza enfrentar o Ceará pelo Campeonato Brasileiro, Rogério conheceu a história de Carlos Roney por meio de uma reportagem da televisão local. Quando era um bebê de um ano e seis meses, o menino sofreu com as complicações de uma meningite, teve as duas pernas e as pontinhas dos dedos da mão amputadas. “Antes da doença, ele sempre corria atrás de tudo, bola, meia, balão, lata”, diz a mãe de Roney, Francinete Barbosa.

Depois que se tornou deficiente, a criança não desistiu da bola. Mas, como tinha menos mobilidade que os colegas, foi deslocado para ser goleiro. Mesmo sem pernas grandes quanto qualquer outra, conseguia pular tão alto quanto qualquer um, dizem aqueles que o viram jogar desde cedo. E ele aprendeu primeiro a gostar de Rogério. Depois, virou são-paulino.

“Sempre foi muito ativo, não para nunca. E isso prejudica demais, porque o corpo pesa e as próteses que ele usa não são próprias para esporte”, afirma o professor Cristiano Sabino, que acolheu Roney em sua escolinha de futebol.

A história comoveu o ídolo, que convidou o garoto para bater bola antes do jogo no Castelão. Roney, sua mãe e seu professor foram a São Paulo e conseguiram as próteses que ele tem hoje por meio de uma parceria entre o clube e o AACD Lar Escola São Francisco, uma instituição filantrópica da capital paulista. Francinete afirma que, na ocasião, lhes foram prometidas próteses próprias para a prática esportiva.

“O pessoal do São Paulo prometeu dar uma mais moderna, mais resistente, e a gente ficou esperando. Mas até hoje não aconteceu nada. Eu liguei uma vez para lá, e falaram que não tinham esquecido, que estavam esperando um patrocinador porque essa prótese nova é muito cara”, afirma Francinete.

FIBRA DE CARBONO – Estima-se que um equipamento desse tipo, feito de fibra de carbono, custe cerca de R$ 30 mil. Carlos Roney, a mãe e a irmã vivem em uma casa de dois cômodos com R$ 622 por mês, valor do beneficio previdenciário do garoto. O programa Bolsa Família complementa a renda com mais R$ 100. O pai do menino foi embora quando ele tinha acabado de fazer três anos. “Arranjou mulher nova e nunca mais voltou”, diz a mãe. “Voltou uma ou duas vezes”, ela se corrige. “Para passar fim de semana depois que o filho apareceu na televisão.”

Rosane Chamlian, a médica fisiatra especializada em amputados que atendeu Roney em São Paulo, prescreveu os dois tipos de equipamento ao garoto. Mas já sabia que seria muito difícil ele conseguir o modelo esportivo. “Não é algo que o Sistema Único de Saúde disponibilize por rotina. Na maioria das vezes, o amputado precisa arcar com os custos do próprio bolso”, afirma. Ela avisou à família que as próteses simples poderiam quebrar em um jogo de futebol. E recomendou que incentivassem Roney a praticar esportes paraolímpicos: algumas modalidades não necessitam de equipamentos especiais.

“Casos de criança amputadas nas duas pernas não são muito comuns. Mas quando percebemos que têm uma aptidão maior para o esporte, tentamos treiná-los para alguma modalidade. No caso do futebol, é normal que crianças biamputadas sejam deslocadas para o gol.” Foi o que aconteceu com Carlos.

Procurada pela reportagem, a assessoria de imprensa do São Paulo diz que nunca foi feita promessa de próteses esportivas à família de Carlos. O clube afirma ter dito, na época, que buscaria patrocínios e apoiadores para garantir “a melhor prótese possível” ao garoto. O funcionário tricolor que organizou o encontro entre o goleiro e o fã disse desconhecer as atuais necessidades de Carlos, mas se mostrou disposto a ouvi-lo.

Sem ter como comprar o equipamento do filho, Francinete pretende pedir próteses novas para a Secretaria de Saúde de Fortaleza. “A fila é longa. Às vezes, temos de esperar mais de um ano por uma resposta”, afirma ela. Outra opção, levantada pelo treinador Cristiano, é apelar ao programa Caldeirão do Huck, conhecido por fazer ações assistenciais desse tipo.

Da mesma forma ocasional em que uniu o capitão e o menino, o mundo da bola agora os separa. Depois da queda do Ceará à segunda divisão, o São Paulo não deve visitar o Estado neste ano. O desencontro na tabela dificulta o reencontro entre os dois. Mais de 3 mil quilômetros longe do ídolo, Roney só pode vê-lo pela televisão.

Fonte: Esporte UOL

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Passo Firme – 07.08.2012
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