Amputação fez skatista abandonar o skate, mas o apresentou ao paratletismo

Figura mítica entre os skatistas de Presidente Prudente, interior de São Paulo, hoje ele é exemplo de superação e compete nas provas de dardo, peso e disco

Digão (foto) é um esportista nato, daqueles que a voz recebe uma dose extra de entusiasmo quando toca no assunto. Nascido Valmir Santos Rodrigues, hoje com 52 anos, teve que abandonar o half pipe do Parque do Povo e de outros lugares do país após ter a perna amputada por causa de um acidente de trânsito sofrido na infância. Embora a história seja triste, ele não se deixou abalar e se tornou um exemplo de superação.

A paixão pelo esporte veio desde a infância. Começou jogando futebol, mas logo se apaixonou pelo skate quando uma amiga da irmã levou um para sua casa. “Foi paixão à primeira vista”, define. Depois disso, começou a percorrer as ruas de Presidente Prudente, sua cidade natal, onde participou da inauguração da famosa pista de skate no Parque do Povo da cidade.

Entretanto, seu lazer favorito estava ameaçado. Aos sete anos, brincando sentado na calçada rua, um carro passou por cima de sua perna esquerda e quebrou diversos ossos do seu pé. Após bastante tempo internado, por consequência do acidente, ele começou a mancar, pois, com o passar do tempo, a perna ficou quatro centímetros mais curta.

“Mesmo assim, eu nunca deixei de fazer o que gostava. Nos campeonatos, os caras falavam: ‘Ué, um cara assim andando de skate?’. E eu fazia as manobras iguais as deles. Mesmo mancando, continuei de cabeça no esporte”, relembra ele, que pela superação e qualidade das manobras que mandas, tornou-se uma figura quase mítica entre os skatistas de Presidente Prudente.

Já em 2000, dores e inchaços no joelho esquerdo começaram a incomodar. As fisioterapias não adiantavam mais e ele teve que ir para o hospital tratar da osteomielite, uma inflação entre o fêmur e a tíbia. “Fui tratar em Brasília, no Hospital Sarah Kubitschek. Eles falaram sobre a amputação, mas também disseram que eu poderia ficar com a perna, mas ficaria condenado a vida inteira a tomar analgésicos e conviver com dores”, conta.

A amputação foi feita no dia 16 de janeiro de 2002, aos 40 anos, pouco acima do joelho. “Graças à boa condição física, já que nunca fumei ou bebi e sempre pratiquei esportes, e tinha o psicológico bem condicionado, a cicatrização e a aceitação foram rápidas. Eu até saí no jornal do hospital. Escreveram: ‘Superação de vida: Atleta com 40 dias de amputação transfemural já anda com prótese imediata”, orgulha-se.

Abandonar o skate foi um “golpe”, como ele mesmo define, mas o sentimento ruim não durou muito tempo. “Eu só fiquei triste uma vez. Quando você é amputado, eles te colocam dentro de uma espécie de manequim para enganar o seu cérebro, para que quando você acorde não tenha um impacto. Depois de alguns dias, eles tiram. Nos meus primeiros passos, fiquei deprimido, tonto, não tive vontade de comer. Mas foi só neste dia”, garante.

Parece exagero tanta fé na vida e bom humor? Digão diz que estas são características suas que vêm desde sempre. “Sempre fui um cara alto astral. Se fico triste, é por pouco tempo. Também aprendi com um velho sábio, no Rio de Janeiro, que você não perde por ser simpático. Ele dizia: ‘Por onde você passar, faça amizade, porque o mundo dá voltas e você pode voltar àquele lugar e achar essa pessoa e ela vai te tratar com muito carinho’”,parafraseia.

SUPERAÇÃO – Depois da cirurgia, de volta a Prudente, ele usou o esporte para continuar a recuperação: praticava natação e basquete sobre rodas, apesar de não ser cadeirante.

Com uma prótese na perna esquerda, em 2005 descobriu o atletismo e se tornou paratleta. Até hoje ele disputa competições de arremesso de peso, dardo e disco – que é a sua especialidade – na categoria F-42, voltada a pessoas amputadas ou com deformidade nos membros inferiores.

Logo na primeira competição, ele já agarrou um bronze e uma prata. “Hoje eu tenho 60 medalhas, inclusive de campeonatos nacionais. Em 2008, competi com pessoas sem deficiência em um campeonato sênior e consegui duas medalhas”,diz.

“O paratleta é mais unido, não tem tanta rivalidade como os outros. Mesmo competindo, você bate palmas para o adversário, empresta equipamentos e compartilha as histórias de superação”, continua.

Além da rotina de malhar duas vezes por semana e treinar, ele ainda precisa se dedicar à sua profissão. Ele é eletricista. O esporte, infelizmente, é apenas um hobby, já que falta um patrocinador para que ele viva do que ama.

Se isso acontecesse, ele teria condições de tentar uma vaga para as Paraolimpíadas do Rio de Janeiro, que serão realizadas em 2016. Porém, além do patrocínio, ele precisaria melhorar suas marcas. “No atletismo, para você superar sua marca, coisa de 10 ou 15 cm, tem que trabalhar muito”,reconhece ele, que diz ter tido a melhor marca do Brasil em 2007.

Enquanto isso não acontece, ele segue dando palestras em presídios, escolas e entidades. “Eu sempre tive isso de ajudar as pessoas. No hospital, quando eu estava saindo, eu ia conversar com quem estava chegando, quem tinha acabado de ser amputado para tirar a pessoa da depressão”, diz.

“Uma vez no Hospital Regional, fui buscar um medicamento e vi um amputado. Eu tinha duas próteses paradas em casa e ofereci a ele. Seu semblante mudou na hora”, lembra. “Eu fico triste de ver alguém triste, gosto de mostrar que nada está perdido, seja doença ou amputação. Vejo que o espírito da pessoa muda depois de horas de conversa. É a minha missão”.

Fonte: Ifronteira

Passo Firme – 06.09.2012
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